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Francisco Sepulveda

Cores que contam histórias

O que peço a uma pintura é o que peço ao silêncio: que me conte uma história. A arte de Francisco Sepulveda é a de um fabricador de enigmas e fascínios: vemos para ficar cegos e ausentes de nós mesmos. Vemos para que uma voz nos faça regressar da tela onde nos perdemos.

O que ele pinta são mistérios com raiz no seu Chile, nas paisagens que não são da ordem da geografia porque estão dentro de nós. Sepulveda é um viajante que foi bebendo as suas próprias viagens e se deixou contaminar pelos lugares por onde passou.

Escrevo na minha sala de Maputo e ali, na parede, está uma das suas pinturas. O quadro é simples, aliás parece simples: há um homem escuro que, deitado numa rede colorida, vai lendo um livro. No chão, por baixo da rede, há prédios miniaturizados como se tombassem das folhas do livro.

É esse quadro que me vai fitando, todos os dias enquanto escrevo. Ao fim da tarde, dou ao pausa ao ofício de sonhar e fecho os cortinados. É então que uma outra luz se acende na casa. E eu receio que as leis do mundo se tenham invertido: aquele quadro é que sustenta a parede. Como os sonhos sustentam a vida.

Mia Couto
Maputo, 30/03/17